Parte 1
Eu não gosto de política. Não sou muito ligado, não acompanho nem os escândalos (coisa que temos uma tendência natural a fazer), não tenho disposição nenhuma pra discutir nem argumentar. Diria que sou preguiçoso em relação a tudo isso. E já pra começar, se você vai dizer que estou errado: não fode.
Você pode dizer que é só tipinho, ou achar que é demonstração de patriotismo acompanhar a política do meu país, uma obrigação de todo cidadão, etc e tal, e que eu não tenho direitos nenhum em cobrar nada já que eu não ligo pra isso. Mas o fato é que eu não cobro, e a minha cabeça raramente faz a relação problemas do nosso povo com políticos. Normalmente ela liga problemas do nosso povo com nós mesmos.
Aí entra o primeiro ponto do qual eu queria falar: eu, sinceramente, nunca me vi no direito de cobrar.
Na minha cabeça funciona da seguinte forma: se alguma vez eu já joguei um papel qualquer na rua, eu não posso reclamar do político que nunca resolve o problema da rua que alaga quando chove. Se alguma vez eu passei no sinal vermelho ou furei uma fila ou roubei um chocolate nas Americanas ou falsifiquei uma carteira pra pagar meia no cinema ou um atestado médico pra não ir trabalhar ou tava ouvindo som alto depois das 22h incomodando meus vizinhos, eu não me vejo no direito de cobrar porra nenhuma de nada.
Veja bem, esse é o meu pensamento. E logicamente não estou comparando responsabilidades, mas sim atitudes. É claro que as responsabilidades dos sacanas lá em Brasília são muito maiores e envolvem muito mais pessoas, e longe dos meus erros comuns justificarem quaisquer erros que eles cometam. É claro que eu não vou deixar de ficar muito puto com o sacana que rouba o dinheiro da poupança do povão, ou o que desvia a grana destinada a melhorar a vida da galera que mora lá no interior do cu da Bahia, sem água nem energia elétrica.
Mas a atitude desonesta, em sua essência, é a mesma. Tanto a deles como a nossa fere e desrespeita o próximo. A diferença é que é muito mais fácil encher a boca pra falar dos políticos corruptos do que mudar as nossas próprias manias erradas, pequenas e mesquinhas. A diferença é que eles são trinta? Trezentos? Três mil? Nós somos cento e noventa milhões.
Por isso eu fico na minha, mas vou tentando melhorar. Vou em passos lentos, mas vou tentando fazer a minha parte. Não que só possa existir cobranças ou julgamentos quando alguém se tornar A Perfeição, mas talvez isso seja o ideal. É como funciona na minha cabeça, e essa parte da cobrança eu vou deixando pra quem se acha no direito de cobrar.
Se algum dia você reprovou na escola nao tem direito de reclamar sobre a precariedade da educação?
Ou é porque você por vezes pode não ter se esforçado pra ser um profissional melhor não pode reclamar da falta de preparo dos professores?
Ou porque você estudou em escola particular não tem direito de reclamar da situação das escolas públicas?
Ou é porque você tá preocupado demais com coisas chatinhas como o SWU?
tchén!
Eu também não faço nada pra melhorar as coisas, só tento não ser muito bizarra ;P
Então Rê, se eu entendi bem seu comentário:
Direito de reclamar todo mundo tem, e de fazer o que quiser. Por isso mesmo escrevi o texto com um tom bem pessoal.
Mas bem no fundo eu acho que reclamar quando você não se esforça ao máximo não passa de uma desculpa pra sua própria mediocriadade.
Reclamar por reclamar é só desabafo sem função nenhuma – não se mediocridade ou pura indignação mesmo – mas um monte de gente reclamando junto pode servir pra alguma coisa, eu acho, talvez, quem sabe.
Mas tem coisa que só é melhor ouvir do que ser surdo ;D
starts with you (:
starts with you?
Renata metralhando!
Sei não, mas na minha mente bitolada talvez o nosso maior problema (e talvez único) seja cultural e não político (e não confundam cultural com histórico).
pq assim, acho que vc fez comparações de erros um pouco distantes, como roubar um chocolate das americanas e roubar a poupança de milhões de brasileiros.
tudo bem, é roubo, mas é como prender um cara que roubou uma galinha pra dar de comer à sua família e deixar solto um cara que matou a esposa a paulada pq ficou sabendo que ela deu pro padeiro.
quando eu frequentava a escola bíblica dominical aprendi que pra Deus não existe pecadinho e nem pecadão, vc matar alguém ou ser viciado em algo, lhe fará ir pro inferno do mesmo jeito…
então em alguns momentos, compreendi sua posição de “Ah! quem sou eu pra reclamar e tal…”
mas ao mesmo tempo, acho que comparando a gravidade dos erros, vc como cidadão tem todo o direito de achar que algo está errado, injusto e etc.
eu só não saio por aí bradando aos quatro cantos minha posição política, por simplesmente não ter uma posição política, tenho apenas gostos e desgostos. não fico apontando erros, não por ser indigna disso, mas sim por não ter essa posição que acabei de citar.
injusto não é criticar um roubo, injusto é eu sair falando mal do X se eu não sei quem é o Y e vice versa, por isso não gosto de falar de política.
falar de política (leia-se partidos e pessoas) é diferente de falar das injustiças que os políticos fazem no seu país…
espero que tenha me entendido.
Quer dizer então que roubar um chocolate de uma loja por qualquer motivo estúpido é mais correto (ou menos errado) do que o político que rouba a poupança de milhões?
Depois você fez outra comparação mas botou os MOTIVOS no meio. Aí sim, pode até ter pesos diferentes, mas perceba que os nossos “erros” comuns que eu citei são levados por motivações idiotas. Jogar lixo na rua, furar fila, roubar um chocolate: não existe uma razão lógica pra gente fazer nada disso, mas a gente faz.
E no fim, eu concordo com você e disse isso no texto: eu sei que posso achar que qualquer um está errado, injusto, etc, só não me sinto bem em cobrar outra pessoa se eu não faço o mínimo pra mudar a situação.
E como diria minha vó: quem rouba 1 real rouba 1 milhão! (:
Eu concordo com você, até porque essas pequenas atitudes “justificaveis” vicio de malandragem. Começa ai o errado, e não dá pra excluir os politicos do povo, eles vieram daqui, desse mesmo mundinho de roubar chocolate, passar um sinal ou furar fila. A diferença é que as dimensões dos erros deles são muito maiores e afetam muito mais pessoas, mas esses nossos pequenos erros acabam justificando e introjetando a atitude corrupta dos politicos. E uma pessoa que acha certo essas coisas, reclama e reclama das atitudes dos caras lá em Brasilia, mas, se fosse eleito, faria o mesmo, ou pior. É que nem aquela historia do mensalão, que em meio a mil críticas, sempre tinha um comentário do tipo “tb quero meu mensalão!”. Todo mundo quer um mole, e é muito dificil se manter correto quando a tentação e a roubalheira rola solta, acaba a mesma justificativa “ah, todo mundo faz, pq não eu tb?”
Não que a gente não possa achar errado o q eles fazem, aliás devemos, pq, apesar de tudo, é reclamando que a gente consegue mudar alguma coisa. Mas acho muito mais produtivo a sua linha de pensamento beija-flor “faça sua parte”. É utópico, mas é bonito!
*viram vicio
Morgs, você entendeu direitinho meu ponto de vista.
Até ao final, quando você disse que devemos reclamar pra tentar mudar alguma coisa: também penso assim, mas não o faço por preguissa, confesso, mea culpa.
Sem entrar no mérito de quem está certo ou errado – até porque não acredito em verdades universais, acho que cada um tem que ter suas próprias verdades e que elas sejam respeitadas -, nesse tema eu hei de concordar inteiramente com Mateus (e Morgana).
Não por escolha, mas porque meu cérebro funciona de forma similar: seja por hereditariedade, criação, ambiente social.
Talvez, numa próxima encarnação, eu venha politizada. Acho difícil, mas quem sabe?
Ah, e me desculpe, Bertold Brecht. Acho que você está certíssimo em possuir a SUA verdade:
“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”
Mateus,
Tente pensar nas questões políticas a partir de um motivo fundador e distal, não no motivo proximal, neste caso o “não cobro porque não faço”, ou o “estou roubando porque tenho fome” mas pense “o que leva a eu não fazer…?”, ou melhor, porque de modo geral as pessoas não fazem valer uma atitude cidadã? Acho que a partir disso você pode entender porque parece existir (se é que realmente não existe) uma alça de retroalimentação positiva da corrupção, dos problemas ambientais, sociais, econômicos…
Ou você suja a rua pra dar emprego a gari? É melhor “dar emprego a gari” ou repassar estes milhões para funções mais uteis à sociedade? Que tal educação (o cutelo para ceifar esta “cultura”, como citada em um dos comentário, que está instalada na sociedade)? Não precisamos viver destes pensamentos simplórios, não é?
Abraço