Ontem eu vi Rosinha

E, claro, ela contou a história da camisinha.

Rosinha, pra quem ainda não conhece, é prima-tia-sobrinha-irmã da minha avó por parte de pai em algum grau impossível de ser catalogado. Culpa de uma linhagem de machos-alfa dominantes na minha família desde 1640, disseminadores da nossa raça pelas esquinas do interior da Bahia. Meu pai, por exemplo, emendou eu e meu irmão com uma diferença de 7,5 meses em duas mulheres diferentes. A última delas, com quem ele eventualmente se casou, é minha mãe (a feição de surpresa é geral quando eu conto, até explicar que Eric é meu irmão por parte de pai).

Acho, inclusive, que a linhagem macho-alfa parou no meu velho.

Mas derivo. Assunto para um próximo post.

Considero Rosinha uma verdadeira tia, mas não sei  qual é a idade dela, nem onde ela mora (Rosinha não aceita caronas, e não adianta insistir), nem qual é a sua comida preferida, nem se ela tem filhos ou maridos ou amigos. As três únicas coisas que eu sei de Rosinha são:

  1. Ela não gosta de tomar banho;
  2. ela sempre está com um lenço enrolado na cabeça, e
  3. ela vai me contar a história da camisinha.

A história da camisinha.

Segundo Rosinha, quando eu era “tão pequeno que cabia num copinho de mungunzá”, ela ainda costurava roupas e ia fazer uma camisa pra me dar de presente.

– Venha cá Teteu, experimentar essa camisinha que eu fiz pra você.

Eu então, já àquela idade, fazia cara de safado. Safadinho.

– Não titia, que eu ainda sou muito pequeno pra usar camisinha.

Ela ri, eu rio, todo mundo que está perto ri. Se minha avó estiver perto ela também vai rir, depois se emocionar, depois chorar. Detalhe: ninguém confirma o caso da camisinha.

Antigamente eu tinha mais contato com Rosinha. Ela chegava lá em casa, ficava conversando e não ia embora antes da novela das 8, quando minha avó dizia que já estava muito tarde para Rosinha sair pela Boca do Rio sozinha. Dormia no sofá da sala. Ficava três dias, uma semana, um mês, e ia ficando. Quando ela finalmente ia embora minha avó tinha que mandar Deja lavar o estofado do sofá.

Agora que minha avó não mora mais com a gente, eu pouco vejo Rosinha. A encontrei ontem, por acaso, perambulando aqui perto de casa, com uma sacola de supermercado cheia de linhas e panos velhos na mão. Apesar de Rosinha já ter me contado a história da camisinha por tantas vezes e de praticamente me agarrar toda vez que me vê, eu sempre dou risadas quando a encontro. Ela é  dessas figuras da minha vida que eu acho que mereciam ser talhadas na memória pra nunca serem esquecidas. Rosinha com seu pano na cabeça, uma figura histórica.

Anúncios

4 Responses to “Ontem eu vi Rosinha”


  1. 1 deniac 24/11/2009 às 12:29 am

    Já pode escrever um livro, meu velho: “Memórias do beiço…ehrrr… digo, do berço!”.

    8-D

  2. 2 vanescaff 24/11/2009 às 3:24 am

    “Acho, inclusive, que a linhagem macho-alfa parou no meu velho.”

    Muaaaaaahahahahahahahaha! ROFL

  3. 4 Alfaia 24/11/2009 às 8:59 am

    Conheci a Rosinha em Genebra. Já me pareceu simpática naquele tempo.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Mais Lidos

@borbaruir

Arquivo


%d blogueiros gostam disto: