Sobre conclusões aleatórias, musicais e coletivos

Muitos dos meus amigos pensam que eu nunca comprei um carro por falta de dinheiro. Tolos. Poucos sabem que, na verdade, sou impulsionado a não cometer esta sandice por pura e simples  vontade de andar de ônibus, o popular busu. Juro, não deixaria nada me privar de um prazer social coletivo tão edificante quanto utilizar o transporte público de Salvador, com toda sua mistura de calor, sons e fedor aromas.

Vejamos: meu dia normal começa entre 06:30 / 07:30 e termina entre 23:30 / 01:30. Isso me dá uma média de 13 horas diárias para afazeres e afins, dos quais devo passar pelo menos 50 60 70 80% em frente a um monitor moscando trabalhando. Não fossem os 40 a 50 minutos que passo todas as manhã dentro de um ônibus, eu não teria tempo para minha masturbação mental. E acredite, 40 ou 50 minutos por dia dessa punheta cerebral são suficientes para arejar os nervos. Diria até que faz bem à alma. Autoconhecimento legítimo.

Pois bem, não falarei das minhas experiências no 486 da BTU – essas dariam pra preencher as páginas de uma Barsa – mas justamente de algo que me ocorreu enquanto eu batia essa bronha encefálica: lembrei de ter lido rapidamente uma notícia sobre Tico Santa Cruz se juntar aos ex-Raimundos para fazer shows e pererê caixa de fósforo.

Boa sorte pra eles.

Isso me levou a pensar em bandas que, por motivos quaisquer, acabaram antes de se acabarem. Comecei pelos próprios Raimundos: tudo bem que os caras tentaram (e ao que parece continuam tentando) voltar mais de uma vez, com outra formação, outro estilo, outro nome e o escambau, mas isso (ainda) não foi capaz de sujar a lembrança melancólica que os fãs tem (entre eles, eu) quando escutam, sei lá, Língua Presa ou Deixa eu Falar, e surge aquela simples afirmativa na cabeça: Porra, Raimundos era foda.

Pensei rapidamente em outro exemplo clássico: Nirvana. Venha junto comigo: não acabou sendo uma coisa boa o fato de Kurt ter cometido suicídio? Hoje, provavelmente, eles só conseguiriam encher casas de espetáculo em países de 3° mundo (nós, os isolados geograficamente e monetariamente das grandes famosas bandas internacionais), tocando 80% do Nevermind nos shows (todo o CD menos Something in the way). Veja o saldo positivo: livrou  uma banda ligeiramente medíocre musicalmente de uma decadência iminente e libertou uma das figuras mais importantes do rock nas últimas décadas, tio Dave Grohl. Mais dois ou três discos e todo mundo diria MAS QUE BELA BOSTA ESSE DISCO NOVO DO NIRVANA, HEIN? Eles possivelmente viveriam de manchetes tipo EGO: mais uma briga entre Kurt e aquele baixista que ninguém lembra o nome termina na Delegacia.

Pois bem.

Ainda nesse ínterim, outra conclusão que tive durante minhas elucubrações busísticas foi que Raimundos não passava de uma versão rockeira do mais nobre pagodão baiano. E não foi apenas através de uma afirmação que a amiga Tatiana fez certo dia. Minha mente se iluminou realmente quando viajei na pequena comparação mais abaixo. Vamos a trechos dos letrados Rodolfo, ex-Raimundos e Marcio Vitor, do Psirico:

Se eu fosse um mosquitinho ia te chupar todo dia.
Ia te morder com carinho e nadar na molhadinha.
E na noite em que você dormisse só de calcinha
ia pegar na dobrinha, onde a carne é bem mais macia.
Pompem, Raimundos

Chegando lá, senti a vibração.
Eu olhei pro lado, eu olhei pro outro,
era o mosquito muito muito louco.
Olhei pro lado olhei pro outro, era o mosquito.
Mosquito não morde, mosquito não come,
Mosquito SÓ SÓ PICA, SÓ SÓ PICA, SÓ SÓ PICA, SÓ SÓ PICA,
Era um mosquito muito louco, gostava de picar.
Só Pica, Psirico

Precisa de mais?
Não sei você, mas eu não estranharia se além do Tico Santa Cruz na nova formação dos Raimundos houvesse um negão estilo Jacaré se requebrando todo no palco.

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8 Responses to “Sobre conclusões aleatórias, musicais e coletivos”


  1. 1 Felipe Miranda 10/12/2009 às 4:49 pm

    Los Hermanos e Nelson Gonçalves… Elvis e Reginaldo Rossi… Snoop Dogg e Silvano Salles… guardadas as devidas proporções, dá tudo no mesmo.

  2. 2 Tatiana 10/12/2009 às 5:39 pm

    Sobre busu: Queria que você morasse no Cabulis sacana. Vc pega micro-bus com ar-condicionado. Que beleça. Aí eu ia adorar também. Mas de fato é bom ter uma hora pra pensar na vida. Só podia ser mais fresquinho.

    Não sei se Nirvana teria esse fim trágico. Mas também não consigo pensar em nenhuma banda de grunge que tenha sobrevivido sem mudar seu estilo. Daquela época tem o que? Pearl Jam talvez. Mas é certo que Kurt não pertencia mais a terra. Ele era muito louco pra continuar vivendo.

    Uma banda que poderia acabar antes que se detonem de vez é Skank. Já já eles viram um Roupa Nova da vida.

    • 3 borba 10/12/2009 às 5:52 pm

      Pensei justamente nisso, fazer uma comparação com algum Grunge atual, mas só pensei em Pearl Jam, aí deixei pra lá.

      Dava pra pegar várias bandas nesse exemplo e levar a discussão, mas ia ficar sacal. :)

  3. 4 vanescaff 10/12/2009 às 7:01 pm

    Eu fui para um show de Raimundos na Concha Acústica (provavelmente você ainda usava fraldas) e the people se requebrava e dava gritinhos histéricos tal qual um show de pagode.

    Mas eu curti.

  4. 5 vanescaff 10/12/2009 às 7:12 pm

    “Selim”, por exemplo, daria uma excelente adaptação trash pagodística.

    • 6 borba 10/12/2009 às 8:36 pm

      Van, você? Num show de Raimundos? No creo.

      E EU USAVA FRALDAS? Ia mandar você pra casa da porra, mas acabei de descobrir que Raimundos é de 87. Eu ainda tava nascendo…

  5. 7 Renan Alfaia 14/12/2009 às 11:33 am

    Velho, talvez a gente já conversou sobre isso. Se não, fiquei com a impressão porque penso parecido: essa banda só é genial porque o cara morreu (ou a banda toda).

    É assim, amigo, hoje tem uma galera aí num nível elevado, ganhando “por toda a minha vida” na tevê, geniosos, talentosos, Cazuzas, Renatos, CLAUDINHOS… todos mortos, graças ao nosso bom DEUS!

    Em segredo eu penso no bem que fez aquela serra da cantereira no meio da lata dos mamonas e que bom que teria sido, lá pelo meio do álbum ‘nadando com os tubarões’, um fratura na cabeça do CHORÃO adquirida numa mega-rampa, sei lá.

    • 8 borba 15/12/2009 às 3:43 pm

      Cara, perfeito. Teu comentário poderia perfeitamente estar complementando o texto.

      Ainda lembrei dos Mamonas, mas fiquei com preguiça de falar deles…


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