A velha Porto

Se você é um dos meus milhares de leitores (abraço pai, beijo mãe) que reside na cidade de Salvador e me conhece pessoalmente, posso te garantir uma coisa – na verdade duas: a primeira é que eu sou um cabra macho retado; a segunda é que eu sou o único ser humano nascido/criado/vivido em Porto Velho que você conhece e provavelmente vai conhecer durante sua estadia na Terra.

Tudo começou quando meu velho, ainda um jovem recém-formado na corporação militar do Estado da Bahia, teve a oportunidade de fazer um concurso para tentar seguir carreira militar no Estado de Rondônia. Você leu certo: Rondônia. Sem muitas opções, com um filho fora do casamento e esta figura que vos digita já engatilhado no útero de minha mãe, lá foi ele. Foi e passou.

Minha mãe adora contar a primeira coisa que ele disse pelo telefone, assim que fez a primeira ligação pra ela do outro lado do país:

– Nega, aqui só tem mato e poeira.

Mas mesmo com mato, poeira, calor e capivara, lá foi minha mãe atrás de meu pai assim que tudo se acertou, grávida e barriguda, rumo ao desconhecido em sua primeira viagem de avião. Estávamos em 1986, e Rondônia tinha deixado de ser Território Federal para virar Estado há pouco mais de quatro anos.

Outra coisa que minha mãe gosta de contar são os percalços pelos quais ela passou nos primeiros anos de nossa vida em Porto Velho. Coisas como:

1. Em Porto Velho não havia nenhuma rua com calçamento. Asfalto? Necadipitibiriba. Era tudo na base do CASCALHO;

2. mosquitos, muitos mosquitos. Sabe aquela piadinha de dormir no quarto e acordar na sala porque foi carregado por mosquitos? Pois é, lá isso não era piada. Mosquitos das mais variadas espécies e tipos, desde muriçocas marroquinas até pernilongos togoleses;

3. energia elétrica. Até tinha, mas eram exatas 6 horas diárias de energia elétrica, por questões de racionamento. Isso nos leva automaticamente ao 4° ponto:

4. Você pode até não ter filhos, mas imagina como seja criar um bebê nos seus primeiros anos de vida, não? Bebês pouco dormem, apenas cagam, comem e choram. Eu, particularmente, fazia tudo isso elevado à enésima potência. Comia feito um boi e conseqüentemente cagava feito um elefante. Chorava, chorava muito, demais, além da conta (o que levou uma vizinha a achar que, já que tínhamos vindo da Bahia, eu tinha o Exu no corpo e minha mãe era macumbeira) e logicamente dormia pouco. Imagine então como minha mãe passava as noites comigo, sem energia elétrica, me abanando com alguma revista velha, na companhia das malditas muriçocas marroquinas;

5. etc., coisa e tal.

O lado bom é que eu não me lembro de nada disso. Tenho memórias espaçadas, seletivas, a partir de um momento em que já existiam ruas asfaltadas e energia elétrica 24/7. Daí surge a primeira fase da minha vida, que na próxima parte do texto eu vou chamar de Rua 7, Quadra 4, Cuniã.

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9 Responses to “A velha Porto”


  1. 1 Felipe Miranda 15/12/2009 às 3:31 pm

    As vezes você escreve muito bem, cara.

    Ê!

  2. 2 Alfaia 15/12/2009 às 8:37 pm

    Velho, lembra de um texto meu que falava alguma coisa de Porto Velho sobre o tamanhos dos mosquitos? Não lembro bem, vou procurar no genebra depois.

    Enfim, avisa pra todo mundo aê que isso aqui hoje é METRÓPOLE, benhê!

    Ih!

    NEM!


  1. 1 Nada sofisticado, mas com muito felling (bate no peito) « Borba a ruir Trackback em 03/02/2010 às 1:33 pm
  2. 2 Um lugar chamado Nhô Caldos « Borba a ruir Trackback em 17/03/2010 às 9:25 am
  3. 3 Jenifer « Borba a ruir Trackback em 14/04/2010 às 2:02 pm
  4. 4 Paula « Borba a ruir Trackback em 22/06/2010 às 12:58 pm
  5. 5 Paula — Trackback em 18/05/2011 às 3:42 pm
  6. 6 Nada sofisticado, mas com muito feeling (bate no peito) — Trackback em 18/05/2011 às 3:45 pm
  7. 7 Jenifer — Trackback em 18/05/2011 às 3:47 pm

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