Rua 7, Quadra 4, Cuniã

Minha infância em Porto Velho foi uma daquelas que tu conta pros amigos com brilho nos olhos e cheiro de nostalgia exalando em cada palavra, mas não tem muito de diferente da infância da maioria dos guris da minha geração: se dividia entre acordar, estudar e RUA, com o agravante de algo que você talvez tenha lido na primeira parte do texto: CASCALHO. Todo meu bairro jazia logo acima de uma vigorosa camada quase virgem composta de terra marrom escura, pedregulhos pontudos e objetos não identificáveis.

Alguém ensina pro Google que "Porto" não tem acento.

Nunca fui muito de videogames. Apesar de bons, representam poucos momentos dos meus tempos de guri. Além do fato do GENERAL só deixar eu instalá-lo nas férias escolares (o que deixavam meu SNES sempre com aparência de ACABOU DE SAIR DA LOJA), meu jogo preferido era International Superstar Soccer e meus amigos só queriam saber de zerar Mario pela trilionésima (que eu gostava bastante, mas achava bem menos sociável).

Futebol que inclusive sempre foi minha preferência geral. Verdade seja dita: eu nunca fui um exímio boleiro, mas digamos que estivesse entre os melhores da minha rua – o que não era grande coisa numa rua que contava com 3 gordinhos, entre eles Júnior Bill. Fato é que eu jogava certinho, o que não me impedia de perder a tampa do dedão pelo menos uma vez por semana. Nada mais natural pra quem jogava descalço dando bicudas a esmo sonhando ser jogador profissional.

Júnior Bill era meu vizinho e um cara gente boa, mas você sabe como é criança, não sabe? A gente sempre procurava um jeito de bater nele. Nada demais, coisas de criança mesmo, tipo amarrá-lo num poste para dar umas lapadas naquela busanfa gorda com a câmera do pneu lascado da bicicleta do Felipe. Felipe era um divertinte, o único negão da galera (provavelmente sistema de cotas). Como era o mais velho, cabia a ele conceber os planos maquiavélicos que envolvia tudo de perverso que acontecia na Rua 7, Quadra 4, Cuniã. Júnior Bill também tinha uma irmã, e ela se chamava Paulinha. Aos 10 anos Paulinha gostava de mim. Aos 12 anos eu gostava de Paulinha. Aos 14 anos Paulinha gostava de Higor, que tinha uma irmã chamada Luana, que gostava de mim e era a melhor amiga de Paulinha.

Ninguém nunca pegou ninguém.

Além dos já citados, também tinha o Bruno, irmão mais velho do Higor, que aparecia por lá de vez em quando; o Macaxeira (“fica de quatro aí que eu te explico meu apelido”); os irmão Jr. e Daniel, que na verdade moravam na rua 8 (também era chamada Rua Daniela) mas viviam na rua 7; o Diegão, que depois virou Diovão porque nunca usava cueca; as irmãs Naiara e Nágila e a irmã do Felipe, que – acredite – se chamava Hipotenusa. Apesar do nome, Hipotenusa era linda e dava um caldo e meio e dois bigbigs.

E foi basicamente nesse lugar e com essas pessoas que eu passei vivendo bem até meus 14/15 anos. Logo mais tem outro texto, que eu ainda não sei como vou chamar porque ainda não pensei no plot, mas eu chego lá. Então, até a próxima.

Anúncios

4 Responses to “Rua 7, Quadra 4, Cuniã”


  1. 1 Felipe Miranda 18/12/2009 às 5:19 pm

    Realmente, pouco diferente da minha infância… at´m mesmo nos cascalho, visto que vivi numa fazenda. Todavia, a maioria dos integrantes de uma possível história da minha vida eram afros, o que sempre gerava a questão: “Você é de onde?”.
    Já fui chamado de alemão, gringo, lagartixa, sem sangue e Carla Perez, que posteriormente foi devidamente atualizado para Sheila Mello.

  2. 2 Alfaia 19/12/2009 às 9:13 am

    Fazenda? Sheila Mello? Tá na roça! [ns].

    Na minha rua já morou o TOBINHA. Mas ninguém nunca soube quem colocou e o porquê desse apelido.

    Acontece.

  3. 3 vanescaff 19/12/2009 às 1:05 pm

    Eu não tive rua para brincar, nem amiguinhos da minha idade eu tinha para ir pro play.

    Sendo assim, não tinha escolha a não ser virar nerd dentro de casa, com meus livros, jogos, videogames e gibis.

    Tinha também uma irmã pentelha com quem eu não queria brincar, aquela pirralha.

    Bem, isso de certa forma era um trauma, que na adolescência eu tratei de banir de minha vida e recuperar meu tempo perdido, SOCIALIZANDO GERAL com a galera.

    Virei ex-nerd reintegrada à sociedade. Final feliz.


  1. 1 Paula « Borba a ruir Trackback em 22/06/2010 às 12:59 pm

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Mais Lidos

@borbaruir

Arquivo


%d blogueiros gostam disto: