Um lugar chamado Nhô Caldos

Lembro exatamente do dia em que comecei a freqüentar o Rio Vermelho, bairro boêmio obrigatório na cidade de São Salvador. Na época eu andava meio emputecido, tinha acabado de sair de um relacionamento (aka tomei um pé na busanfa) e passava as noites no quarto chorando minhas milongas.

Daí que um amigo da velha Porto estava na cidade por uns dias e me ligou pra marcar uma saída, aproveitando para conhecer algum lugar legal desta bela e besta província, pererê caixa de fósforo.

– Maldição! Eu não conheço lugar nenhum! Mas vou dar um jeito, peraí que já te ligo!

Até então eu só tinha ouvido falar dos botequins soteropolitanos, mas como nunca tive o hábito de sair muito de casa com a finalidade da badalação noturna, não conhecia nenhum desses lugares de fato.

Qual foi a primeira coisa que eu pensei? “Vou ligar pra Patrícia.” Se você conhece Patrícia (tem que ser essa, não pode ser qualquer Patrícia) você sabe porque ligar para ela foi a primeira coisa que eu pensei. Se você não a conhece, digamos que, por muito tempo, buscando PORRA LOUCA no banco de imagens do meu cérebro, ia ter uma foto dela provavelmente bebendo uma garrafa de Jose Cuervo direto do gargalo, dançando com algum hippie na aldeia de Arembepe.

– Teu! Vamos pro Red River!

Simples assim. Lá fomos nós. Ela já tinha chamado uma amiga, uma tal de Jessica Rampazo, e eu levaria esse meu camarada portovelhano, César. Marcamos o encontro numa barraquinha de água de coco antes do largo de Cira, e pra se ter uma idéia da minha inocência: eu não sabia nem qual ônibus pegar pra chegar ao Rio Vermelho.

O que aconteceu nessa noite ficará pra sempre nas memórias etílicas de cada um de nós e não vai ser muito importante pra este texto. Queria mesmo era preparar o terreno (alô prolixidade, CINCO parágrafos de preparação de terreno) para chegar ao primeiro local onde tomamos a primeira cerveja da noite: o Nhô Caldos.

O Nhô Caldos era um boteco apertado, com umas poucas mesas espalhadas na calçada e que servia cerveja ruim. Acho que era Bavaria, a cerveja dos não tão amigos. Não lembro que banda tocou lá nesse dia, mas sempre tinha uma bandinha tocando. Às vezes a banda era até boa, como a Charlotte Salomão, que fazia um cover de No One Knows fantástico e ainda tocava Beatles.

Charlotte tocando no Nhôca.

As noites invariavelmente começavam lá. Também terminavam lá, mas raramente se estendiam por lá. Lembro mais de um garçom gente boa e de um ou dois mendigos que estavam na área praticamente todo sábado, dançando um roque maroto enquanto pediam uns trocos ou queixavam umas Bavarias.

Hoje não existe mais o Nhô Caldos. O lugar ficou fechado por um tempo, depois virou sede política de um candidato a vereador, depois fechou de novo e hoje é um bar esquisito. Como você pode perceber (levando em consideração que você nunca o tenha freqüentado), o Nhô Caldos nunca teve nada demais. Muita gente inclusive odiava aquele lugar, mas eu sempre curti aquele clima de um belo armengue baiano que parecia dar certo.

Aí você pode até estar se perguntando por que me deu vontade de escrever sobre o Nhô Caldos, já que, como eu mesmo disse, o lugar nunca teve nada demais.

Acontece que esses dias eu me liguei num fato curioso: sempre que estou escutando uma música muito boa eu me imagino tocando ou cantando essa música no palco, num agito louco com uma galera curtindo deveras. Coisa de maluco. E acho engraçado o fato de que, na minha imaginação, eu nunca estou tocando num Maracanã lotado, num Credicard Hall ou numa Concha Acústica da vida. Eu sempre estou ali naquele espacinho apertado do Nhô Caldos, me batendo numa cadeira quando viro o braço da guitarra, com a calçada apinhada de gente cantando junto comigo.

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3 Responses to “Um lugar chamado Nhô Caldos”


  1. 1 Jessica Rampazo 17/03/2010 às 8:20 pm

    Teus,

    Meus póros encontram-se eufóricos. Se minha perna estivesse peluda, meus pelinhos estariam todos em pé, aplaudindo seu nostálgico e belo post.

    Acho que mesmo alguém que nunca tenha ouvido um bom rock no Nhô, sentiu vontade de um dia ter estado lá. Que lugar bacana! Que clima legal! Sinceramente, o melhor lugar que já fui aqui em Salvador. Já pisei em algumas antigas porqueiras como Calipso e Idearium, mas NADA se compara ao armengue do Nhô Caldos.

    Lá foi onde tomamos nossa 1º cerveja juntos (daí percebe-se nosso gosto por nada muito hypado né?). Lá fiquei em água pela 1º vez. Lá ouvi e dancei músicas como se não houvesse amanhã. Lá fiz várias amizades. Lá ouvi o original, vindo do criador mesmo, “Toca Rauuuull”, gritado do Oiapoque ao Chuí deste Brasil. Lá conheci muita gente. Lá fui quase atropelada centenas de vezes para atravessar aquela avenida, só pra descansar, pra sentar no murinho branco, pra ver o mar, os barquinhos, os mendigos fazendo xixi e alguns cachorros. Lá comecei a gostar de morar em Salvador. Lá eu fui muito feliz. (…)

    Sorte daquele que um dia curtiu e soube aproveitar um bom rock por lá!

    P.S. O garçom gente boa chamava-se Noel.

    P.S.² Valeu pelo post, salvou meu dia.

    P.S.³ Obrigada por linkar meu nome a isso:
    “Eu suo pra cacete. Então devo ter um pênis no meio de minhas pernas.”
    Faz com que as pessoas que não me conhecem tenham pensamentos assustadores a meu respeito.

    Obs. Agradecimentos a nossa amiga Patricia.

    Te amo Borbinha!

  2. 3 Renan Alfaia 29/03/2010 às 12:52 pm

    Porra, achei que tinha comentado aqui.

    Enfim, ia falar alguma coisa que tudo isso me lembrou alguma coisa que a gente já tenha feito ou alguma coisa assim. Ou não.

    Mesmo com a prolixidade, belo texto.

    =)


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